Carta aberta para que a Universidade continue sendo um espaço de debate de ideias…

Curitiba, 27 de março de 2017

Carta aberta para que a Universidade continue sendo um espaço de debate de
ideias e de ações e contra as agressões nas redes sociais após a Ciranda de
Debates “A reforma do ensino médio na Geografia: enfrentando a
desinformação e o descaso”organizada no Departamento de Geografia. Uma
mensagem de apoio e concordância com a Professora Mônica Ribeiro da Silva


No dia 10 de março de 2017, o Coletivo de Estudos sobre Conflitos pelo Território e
pela Terra (ENCONTTRA), grupo de pesquisa do Departamento de Geografia,
organizou uma Ciranda de Debates com o tema: “A reforma do ensino médio na
Geografia: enfrentando a desinformação e o descaso”. O objetivo desta ciranda era
informar e debater com a comunidade universitária, especificamente com os
educandos do curso de geografia, a reforma do ensino médio e seus possíveis
desdobramentos, diante das escassas informações que circulam na
sociedade,inclusive no âmbito de um curso de licenciatura como o nosso.Da Ciranda
participaram como debatedores a profª. Ângela Massumi Katuta (UFPR/Setor
Litoral),a profª. Mônica Ribeiro da Silva (UFPR/Setor de Planejamento de Educação
Escolar) e o prof. William Simões (UFFS/Chapecó). Todos eles com um enorme
acúmulo de estudos e experiências sobre o tema.
A despeito da ciranda e dos debates terem ocorrido como de praxe na instituição
universitária, com um público de mais de 60 pessoas e com uma circulação da
palavra que respeitou todos os presentes, fomos informados pela profª. Mônica
Ribeiro da Silva que o prof. Luís Lopes Diniz Filho, docente do curso de Geografia,
que estava entre o público presente na ciranda, fez uma postagem no seu blog no
qual fazia ataques pessoais à professora. A postagem ocorreu no dia 14 de março
(ver no endereço do Blog Tomatadas: http://tomatadas.blogspot.com.br/) e foi
publicado em outro blog de forma mais ofensiva ainda no dia 21 do mesmo mês (ver
no endereço do Blog Vista Direita: http://www.vistadireita.com.br/blog/professoradoutrinadora-da-ufpr-e-pega-no-pulo/).
Compreendemos que a instituição universitária pública possui a autonomia e a
obrigação de realizar amplo debate sobre as recentes transformações propostas
pelo Governo Federal que lhe afetam e sobre as quais são feitas diversas pesquisas
e mobilizações. Entendemos também que o papel da instituição em tempos de
ataque ao Estado Democrático de Direito é o de fomentar a constituição de espaços
de debates, nos quais cada profissional tenha a liberdade de se posicionar de
acordo com suas pesquisas, seus referenciais teórico-metodológicos,
epistemológicos, filosóficos e, consequentemente, suas opções societárias e
políticas em torno de temas candentes para a sociedade brasileira como um
todo.Assim, compreendemos que compõe o
ethos da instituição universitária e dos
que nela estudam e trabalham os embates, questionamentos e disputas políticas por
processos civilizadores e projetos os mais diversos de sociedade brasileira.É neste

sentido que entendemos que esse tipo de ações nos ajuda a construir uma
Universidade onde o pensamento crítico e o compromisso social saiam revigorados,
sempre com a premissa do fortalecimento de uma democracia real e do
cumprimento da missão da UFPR que nos é tão cara: “Liberdade na construção e
autonomia na disseminação do conhecimento”.
Nesta perspectiva, em nossa avaliação, as ações realizadas pelo prof. Diniz Filho
não contribuem para o bom, amplo e livre debate e fortalecimento da democracia
institucional. Pelo contrário, prejudica a todos, inclusive a ele mesmo e ao próprio
Departamento e Curso onde trabalha, na medida em que outros profissionais
convidados pela casa podem declinar convites para palestras e debates, pois podem
ter receio de sofrerem ataques pessoais deste tipo. Como o que sofreu a profª.
Mônica, com uma exposição pessoal e unilateral nas redes sociais, onde uma única
versão é colocada a público, após um debate público. Essas opiniões expressas fora
do calor do debate cara a cara, merecem todo o nosso repúdio, sobretudo, nesse
momento tão perigoso de auge da “pós-verdade” e da tirania dos fatos alternativos
de quem grita mais alto nas redes sociais.
Assim, entendemos que é fundamental que debatamos amplamente no nosso Curso
esse tipo de postura antiética para não sermos todos arrastados pela fama inglória
do Departamento concordar com práticas que apenas buscam a polêmica a
qualquer custo. Parafraseando uma célebre citação do jornalismo, poderíamos dizer
que essa postura prima pelo seguinte princípio: “não deixe que a verdade estrague
um bom e polêmico
post”. Somos contra tais atitudes, juntamente com muitos outros
que participam dessa comunidade universitária.
O ENCONTTRA deixa claro que não concorda com esse tipo de manobras que nos
desgastam e nos afastam dos debates centrais: como a reforma do Ensino Médio, a
terceirização, a “escola sem partido” e o pacote de eliminação de direitos que são
aprovados compulsoriamente e que afetam nosso curso, os estudantes e os já
formados? Temos preocupação com estes temas e sempre abertos ao diálogo, por
isso, queremos mostrar nossa mais firme solidariedade com os posicionamentos da
profª. Mônica Ribeiro da Silva, que tem mostrado sua defesa irrestrita da
universidade pública, gratuita e de qualidade, construída com espírito crítico por
meio de atividades de ensino, pesquisa e extensão. Além da solidariedade também
queremos expressar nosso agradecimento e nossa dívida por compartilhar sua
experiência e seus conhecimentos na Ciranda de Debates de 10 de março e,
tomara, nos desafios que enfrentaremos pela frente.
Obrigado Mônica pelo teu papel na construção de uma universidade efetivamente
democrática que também temos tentado construir!
Coletivo de Estudos sobre Conflitos pelo Território e pela Terra (ENCONTTRA)
Grupo de pesquisa do Departamento de Geografia/UFPR

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O Partido do “Escola sem Partido”

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Monica Ribeiro Silva*

http://www.observatoriodoensinomedio.ufpr.br/o-partido-do-escola-sem-partido/


Desde 2004 vem sendo divulgado no Brasil um movimento que se auto intitula “Escola sem
Partido”. A pretexto de defender uma educação fundada em uma pretensa “neutralidade”, o
movimento, em seu Programa, designa qualquer processo educativo que não esteja baseado
nessa premissa como sendo “doutrinação”.
Mas, seria mesmo “sem partido” o “Escola sem Partido”, ou, ao defender o que defende já não
estaria o movimento tomando partido?
Vejamos: a par dos pilares “defesa da neutralidade” e “contra a doutrinação” o “Escola sem
Partido” se organiza em torno de um
modus operandi. Em seu modo de fazer propõe a proibição
de determinados assuntos ou abordagens e a punição de professores que não obedeçam a esses
princípios e determinações.
Dentre os assuntos privilegiados está o que denomina “ideologia de gênero” e dentre as formas
está, em especial, a abordagem das questões sociais, que deveriam ser tratadas de forma neutra
e o “mais objetiva possível”. A ausência de objetividade estaria, sobretudo, ao ser feita qualquer
menção direta ou indireta a umas das vertentes clássicas da Sociologia, o marxismo.
(
http://www.programaescolasempartido.org/).
O programa do “Escola sem Partido” pretende instituir nas escolas um conjunto de medidas,
como por exemplo um cartaz a ser afixado em cada sala de aula dizendo quais assuntos ou
abordagens seriam proibidos e que, em caso do não atendimento, incorreria o/a professor/a em
“abuso da liberdade de ensinar” e deveria ser, por essa razão, punido. Para que este processo

funcione, o modus operandi se instituiria pela delação por parte de estudantes ou responsáveis
aos gestores escolares e/ou dos sistemas de ensino.
E aqui começam os indícios para a resposta à pergunta formulada.
A prática da delação, por si só, é antieducativa, haja vista que incentiva posturas que rompem
com a relação de confiança absolutamente fundante da relação pedagógica entre
professores/as e estudantes (Frigotto, 2016); como resultado imediato da delação está a
institucionalização da perseguição ao/à educador/a que teria infringido a regra; delação e
perseguição trazem consigo um terceiro elemento: a intolerância (como por exemplo a que
deriva do assunto “ideologia de gênero”), e um quarto: a punição.
Pois bem, ao tomar partido por esses princípios e métodos, o “Escola sem Partido” evidencia
que age fazendo aquilo que condena: apregoar “delação”, “perseguição”, “intolerância” e
“punição” nada tem de neutro, pelo contrário, tem um compromisso franco e aberto com um
dos movimentos mais perversos da história da humanidade: o fascismo. Este é o partido do
“Escola sem Partido”.
O partido do “Escola sem Partido” é também o antimarxismo, verdadeira obsessão entre seus
adeptos. Derivado dessa postura está a relativização de assuntos como a pobreza e as
desigualdades econômicas e sociais, por vezes tratadas como “ideologias” que impediriam o
desenvolvimento capitalista. Aqui vale lembrar uma frase atribuída a Max Weber: “neutro é
quem já se decidiu pelo mais forte” (Buschbaum, 2004), neste caso, os grandes proprietários e
corporações. Este é o partido do “Escola sem Partido”, esta a sua parcialidade.
Resta analisar que tipo de educação poderia resultar desses princípios e práticas. A esse
respeito, pela proximidade temática vale recorrer a Theodor W. Adorno, sem dúvida um grande
estudioso das relações entre educação e nazismo, versão alemã do fascismo. Para este filósofo,
a educação, sobretudo a que ocorre “após Auschwitz”, precisa, necessariamente, conduzir à
autonomia intelectual e moral e à autoconsciência dos indivíduos, para que a maior barbárie
dentre todas jamais se repita.
Se avaliarmos o potencial objetivo de sobrevivência do nazismo com a
gravidade que lhe atribuo, então isto significará inclusive uma
limitação da pedagogia do esclarecimento. Quer seja ela psicológica
ou sociológica, na prática só atingirá os que se revelarem abertos a ela,
que são justamente aqueles que se fecham ao fascismo. (Adorno,
2005).
A adesão aos princípios e práticas propalados pelo “Escola sem Partido” contrariam exatamente
o que afirma T. W. Adorno com relação aos fins da educação, a capacidade de crítica às práticas
que contrariam a formação humana, para jamais repeti-las. Dentre elas estariam os princípios
que geraram e sustentaram o nazi-fascismo, tais como a delação, a perseguição, a intolerância,
a punição (com a morte). Por meio da delação, da perseguição, da intolerância e da punição, por
meio da parcialidade com que pretende que se mostre a realidade, os princípios e práticas
propostos pelo “Escola sem Partido” vão exatamente em sentido oposto e produzirão a
interdição da formação para a autonomia intelectual e moral, ou seja, o partido do “Escola sem
Partido” gera uma antieducação.

Referências
ADORNO, Theodor W. O que significa elaborar o passado. In: MAAR, W.
Educação e
emancipação
. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.
BUSCHBAUM, P.
Frases Geniais. São Paulo: Ediouro, 2004.
FRIGOTTO, Gaudêncio. “Escola sem Partido”, imposição da mordaça aos educadores.
Revista
Espaço Acadêmico
(on line), 2016.
*Doutora em Educação: História, Política e Ciências Sociais pela PUC SP. Professora na
Universidade Federal do Paraná. Coordenadora e pesquisadora do Observatório do Ensino
Médio.
Fotografia: Giorgia Prates

Um mestre com quem aprender coisas simples fundamentais: John Berger

As notícias, poucas, dizem que John Berger morreu no dia 02/01/2017.

Artesão de todo um pouco, John Berger é o grande mestre do olhar que curiosamente constrói o que vê, um olhar em que reside uma ação essencial “do eu para o nós” (como diz Manuel Rivas). Ninguém assim se vai e pronto, ainda morrendo, fica para nos ensinar sempre…

Como convite ao diálogo ai vai um dos seus escritos. Um convite a lê-lo e dialogar com ele. A aprender coisa simples e fundamentais. Também uma coluna jornalística de afetuoso agradecimento por nos ajudar a pensar diferente.

 

La Jornada, 03/01/2017

Adiós a un crítico del capitalismo

Dónde hallar nuestro hogar

John Berger (2005)

Alguien pregunta: ¿todavía eres marxista? Nunca ha sido tan extensa como hoy la devastación ocasionada por la búsqueda de la ganancia, según la define el capitalismo. Casi todo mundo lo sabe. Cómo entonces es posible no hacerle caso a Marx, quien profetizó y analizó tal devastación. La respuesta sería que la gente, mucha gente, ha perdido sus coordenadas políticas. Sin mapa alguno, no saben adónde se dirigen.

* * *

Todos los días, la gente sigue señales que apuntan a algún sitio que no es su hogar, sino a un destino elegido. Señales carreteras, señales de embarque en algún aeropuerto, avisos en las terminales. Algunos hacen sus viajes por placer, otros por negocios, muchos motivados por la pérdida o la desesperación. Al llegar, terminan por darse cuenta de que no están en el sitio indicado por las señales que siguieron. Donde se encuentran tiene la latitud, la longitud, el tiempo local y la moneda correctos, y no obstante, no tiene la gravedad específica del destino que escogieron.

Se hallan junto al lugar al que escogieron llegar. La distancia que los separa de éste es incalculable. Puede ser únicamente la anchura de un vía pública, puede estar a un mundo de distancia. El sitio ha perdido lo que lo convertía en un destino. Ha perdido su territorio de experiencia.

Algunas veces algunos cuantos de estos viajeros emprenden un viaje privado y hallan el lugar que anhelaban alcanzar, que a veces es más rudo de lo que imaginaban, aunque lo descubren con alivio sin límites. Muchos nunca lo logran. Aceptan los signos que siguieron y es como si no viajaran, como si se quedaran siempre donde ya estaban.

* * *

Voy bajando las escaleras de una estación del Metro para tomar la línea B. Está repleto aquí. ¿Dónde estás tú? ¿De veras? ¿Y cómo está el clima? Ya me tengo que subir al tren, luego te hablo…

De las miles de millones de conversaciones por telefonía móvil que ocurren cada hora en las ciudades y suburbios del mundo, la mayoría, sean privadas o de negocios, comienzan con una declaración del paradero o ubicación aproximada de quien llama. La gente necesita de inmediato identificar con precisión dónde se encuentra. Es como si estuvieran perseguidos por la duda de que tal vez no estén en ninguna parte. Circundados por tantas abstracciones, tienen que inventar y compartir su localización transitoria.

Hace más de 30 años Guy Debord escribió proféticamente: La acumulación de bienes de consumo producidos masivamente para el espacio abstracto del mercado, así como aplastó todas las barreras regionales y legales, y todas las restricciones corporativas de la Edad Media que mantenían la calidad de la producción artesanal, también destruyó la autonomía y la cualidad de los lugares.

El término clave del caos global actual es la dislocación, o la relocalización. Esto no se refiere únicamente a la práctica de mover la producción adonde quiera que la mano de obra sea más barata, y las regulaciones, mínimas.

Contiene también el sueño demente de salirse de margen, propio del nuevo poder en funciones: el sueño de minar el estatus y confianza de todos los lugares fijos previos, de tal manera que el mundo entero sea un solo mercado fluido.

El consumidor es esencialmente alguien que se siente perdido (o a quien se le hace sentir perdido) a menos que consuma. Las marcas y logotipos de las mercancías son el sitio que nombra esa ninguna parte.berger0

Otros signos que anuncian la Libertad y la Democracia, términos robados de periodos históricos previos, se usan también para confundir. En el pasado, fue una táctica común de quienes defendían su tierra natal contra los invasores cambiar las señales camineras para que una que indicaba Zaragoza apuntara en la dirección opuesta hacia Burgos. Hoy no son quienes se defienden, sino los invasores extranjeros los que invierten los signos para confundir a las poblaciones locales, para confundirlas acerca de quién gobierna a quién, acerca de la naturaleza de la felicidad, del alcance del quebranto o de donde ha de hallarse la eternidad. El propósito de estas direcciones falseadas es persuadir a la gente de que ser un cliente es la salvación última.

John Berger en el caracol de Oventic. Foto Víctor Camacho

Sin embargo, a los clientes los define el sitio de su salida y su pago, no dónde viven y mueren.

* * *

A un kilómetro de donde escribo hay un campo donde pastan cuatro burros, dos hembras y dos burritos. Son de una especie particularmente pequeña. Cuando las madres aguzan sus orejas ribeteadas de negro, me llegan a la altura del mentón. Los burritos, de unas cuantas semanas de edad, son del tamaño de unos perros terrier grandes, con la diferencia de que sus cabezas son casi tan grandes como sus costados.

Me brinco la barda y me siento en el campo apoyando la espalda en el tronco de un manzano. Ya tienen sus rutas propias por todo el campo y pasan por debajo de ramas tan bajas que yo tendría que ir a gatas. Me observan. Hay dos áreas donde no hay pasto alguno, sólo tierra rojiza, y es en uno de estos anillos adonde vienen varias veces al día a rodarse sobre su lomo. Primero las madres, luego los burritos. Éstos tienen ya una franja negra en el lomo.

Ahora se aproximan. El olor de los burros y el salvado, no el de los caballos, que es más discreto. Las madres rozan mi cabeza con sus quijadas. Son blancos sus hocicos. Alrededor de sus ojos hay moscas, mucho más agitadas que sus propias miradas interrogantes.

Cuando se quedan a la sombra, en el lindero del bosque, las moscas se marchan y pueden quedarse casi inmóviles por media hora. En la sombra del medio día, el tiempo se alenta. Cuando uno de los burritos mama (la leche de burra es la más semejante a la humana), las orejas de la madre se echan atrás y apuntan a la cola.

Rodeado por los cuatro burros en la luz del día, mi atención se fija en sus patas, dieciséis de ellas. Son esbeltas, contundentes, contienen concentración, seguridad. (Las patas de los caballos parecen histéricas en comparación.). Estas son patas para cruzar montañas que ningún caballo se atrevería, patas para soportar cargas inimaginables si se consideran tan sólo las rodillas, las espinillas, las cernejas, los jarretes, las canillas, los cuartos, las pezuñas. Patas de burro.

Deambulan, con la cabeza baja, pastando, mientras sus orejas no se pierden de nada; los observo, con sus ojos cubiertos de piel. En nuestros intercambios, tal como ocurren, en la compañía de mediodía que nos ofrecemos ellos y yo, hay un sustrato de algo que sólo puedo describir como gratitud. Cuatro burros en un campo, mes de junio, año 2005.

* * *

Sí, entre otras muchas cosas sigo siendo marxista.

 

*Enviado por el autor, traducción: Ramón Vera Herrera para el número 98 (junio de 2005) del suplemento Ojarasca

 

 

La Jornada, 4 de enero de 2017

Nunca fue digerido por el establishment cultural a pesar de su enorme prestigio

Con la muerte de John Berger se va el último gran escritor del siglo XX

Fue todo lo lúcido e incómodo que hiciera falta: su genio residía en la claridad

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Comunista desde su natal Inglaterra, al final de su vida seguía sosteniendo con naturalidad: Sí, entre otras cosas, sigo siendo marxista. La imagen es de su casa en París, en enero de 2016Foto Afp

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Los medios de comunicación poderosos nuevamente se vieron rebasados por las personas, pues frente al silencio que guardaron los consorcios mercantiles en sus periódicos y otros canales, en Twitter y en Facebook no cesan las manifestaciones multitudinarias, en idiomas inclusive poco usuales, celebrando la herencia, el ejemplo y las enseñanzas de John Berger. Los usuarios de esas redes hacen circular con profusión fotografías de sus bibliotecas, de sus libros preferidos de este autor, fotogramas, portadas, citas literarias, en un homenaje espontáneo, conmovido y de agradecimientoFoto tomadas de Twitter y Facebook

 

Hermann Bellinghausen

Con John Berger se va el último gran escritor del siglo XX. Nunca digerido por el establishment cultural a pesar de su enorme prestigio en Europa, la América anglosajona y el ámbito hispánico, logró al final de su vida tener toda su obra en circulación e influir en el pensamiento y las maneras de ver en distintas culturas del mundo. Aun así, llama la atención la relativa indiferencia mediática a la noticia de su muerte. Esa mezquindad confirma que Berger fue todo lo lúcido e incómodo que hiciera falta: su genio residía en la claridad.

De joven educó su mirada en las artes plásticas y luego enseñó a leer, ver y mirar la pintura, la fotografía, las literaturas y la realidad. De manera progresiva, extendió su mirada a los desposeídos y quienes luchan y resisten. Su cátedra conduce a la contemplación consciente y crítica del mundo. Comunista desde su natal Inglaterra, al final de su vida seguía sosteniendo con naturalidad: Sí, entre otras cosas, sigo siendo marxista (2005). No obstante, nunca cedió en estética y gusto a ideologías ni corrales. Su arte literario y crítico nace de la libertad.

Su espectro es muy amplio, y a la vez concentrado: cronista, novelista, poeta, crítico de arte, teórico de la fotografía, dramaturgo, guionista de películas memorables (como La Salamandra, La mitad del mundo y Jonás, que cumplirá los 25 años en el año 2000, de Alain Tanner). Ensayista virtuoso, a la altura de su gran admiradora Susan Sontag, gustaba de acudir a escritores casi secretos pero indiscutibles, como Attila József, Nazim Hikmet, Mahmud Darwish, Andréi Platonov o Juan Gelman. Colaboró toda una vida con el fotógrafo suizo Jean Mohr. Esta suma produciría un género exclusivamente suyo, con la anchura de la prosa y la precisión de la poesía. Unas veces lo llamó fotocopias, otras, comunicados (o despachos); además son cartas, recuerdos, comentarios, reseñas, iluminaciones, dibujos (también estupendo dibujante), recados, aforismos, posicionamientos, denuncias urgentes, lecturas de la esperanza futura. Heredero de Canetti, Benjamin y Kafka, es uno de los grandes prosistas modernos, a la altura de Borges o Calvino.

Nada humano le fue ajeno

Como para pocos, nada humano le fue ajeno.“Homo sum; humani nihil a me alienum puto”, hace decir Terencio a Cremes en El atormentador de sí mismo, para justificar su intromisión dramática. Tal es la máxima favorita de Marx (según reportan sus hijas); asoma de Séneca y Cicerón a Nietzsche, y aflora en la curiosidad de Berger: Admiro y amo su obra. En la literatura contemporánea, me parece incomparable. Desde D. H. Lawrence no ha habido un escritor capaz de ofrecer al mundo tal atención sobre los problemas humanos más disímiles, con una sensualidad que no renuncia a los imperativos de conciencia y responsabilidad, escribió Susan Sontag.

Pertenece a la gama de creadores literarios que desde mitades del siglo XX aprovecharon su condición de célebres para servir de contrapeso ético ante los horrores de la civilización occidental en crisis. Lo suyo, algo más que mera decencia, significa un compromiso efectivo con los pueblos. Usan su influencia para interpelar al mundo. Ya se echa de menos la labor que cumplían al final del siglo XX los Saramago, Sontag, García Márquez, Galeano, Pinter, Fuentes, Gelman, Osvaldo Soriano, Juan Goytisolo, Nadine Gordimer, Günter Grass, Dario Fo y algunos otros, confrontando al firmamento literario conservador y/o comercial que domina academias y mercados. Guardianes de la tribu humana en el terreno de la escritura coincidían con ciertos científicos sociales de excepción (Noam Chomsky, Howard Zinn, Edward Said, Adolfo Gilly, Adolfo Pérez Esquivel, Pablo González Casanova). Ante todo, sus obras y sus fatigas coinciden con las luchas reales, estorban al pensamiento adocenado y al autoritarismo. Increpan al poder atentos a la sal de la Tierra o, como él diría, la puerca Tierra.

El núcleo duro de la obra bergeriana está en sus novelas, todas distintas y únicas, así como sus ensayos narrativos y su profundo escrutinio de la fotografía como agente de la realidad objetiva y subjetiva. Inicia notablemente con Un pintor de nuestro tiempo (1957), valiente ficción en forma de diario de un artista húngaro procedente del antifascismo, que desaparece tras el golpe soviético a Hungría en 1956. Pocos comunistas se permitieron entonces discrepar de la invasión del Ejército Rojo. En King (1999), un perro relata las vicisitudes de lo humano (otro rasgo de Berger fue su empatía con los animales). Cosmopolita curtido, residió por décadas en la Alta Saboya francesa, entre campesinos. En su retablo de tres tomos En sus fatigas (1979-1990) ilustra con detalle y hondura la desaparición del campesinado europeo. Con él pisamos un terreno en el que la ficción absorbe la crónica, otro género del que Berger fue maestro desde Un hombre afortunado (1967) y El séptimo hombre (1975). Su mejor novela, G. (1972), fantasía galante muy europea, sensual y cínica, es refutación implacable del egotismo masculino. En el relato epistolar De A a X (2008) arde una pasión tal que el modelo clásico de las Cartas Portuguesas se transfigura en un amor maduro e incombustible en medio de la resistencia y la cárcel política.

Se opuso a las guerras imperiales y, al igual que otros intelectuales judíos, apoyó la liberación de Palestina con todo su corazón y en voz alta. Para colmo, siguió como Marx los pasos de Spinoza. En 1995, una década antes de visitar el territorio zapatista de Chiapas, John Berger intercambió correspondencia con el subcomandante Marcos en torno al vuelo de las garzas, la vida en el campo, la clandestinidad y las piedras (reproducida en La forma de un bolsillo, Ediciones Era, 2001). Hablaron de las bolsas de resistencia contra el capitalismo. En 2007 llega a los Altos de Chiapas para atestiguar que el silencio que parece haber en las montañas más bien es todos nosotros, escuchando juntos.

Ampliamente editado en España, encontró un atento traductor y editor mexicano en Ramón Vera Herrera, a quien debemos Con la esperanza entre los dientes (La Jornada Ediciones) y De A a X (Ítaca) así como decenas de artículos, ensayos y comunicados aparecidos en La Jornada y Ojarasca desde los años 90. Como sucede con todo gran autor, la literatura de John Berger es una casa con muchas puertas; cualquiera es buena para entrar en ella.

A merda é o ouro dos espertos

Como a “Olimpíada da Superação” é usada para forjar identidade, unidade e consenso no Brasil do impeachment

Eliane Brum

El País, 29 AGO 2016  

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Menino do morro da Mangueira assiste os fogos da cerimônia de encerramento dos Jogos. CARL DE SOUZA AFP

A inversão é fascinante. A Olimpíada foi idealizada, em 2009, para colocar no pódio o Brasil grande. A apoteose do eterno país do futuro que finalmente chegava a um presente grandioso. Em 2016, o “sucesso” da festa busca recolocar o Brasil não apenas como o país que – ainda – tem futuro, mas como o país da “superação”. Não se trata mais, como era em 2009, de lançar a Olimpíada como a imagem que expressa “a verdade final” sobre o país. Em 2016, a Olimpíada é disputada, pelos vários atores, como a imagem capaz de tapar os buracos de um país. E devolver uma unidade, qualquer uma, ou um consenso, qualquer um, a um Brasil partido não em dois, mas em vários pedaços.

Em 2009, a questão era: veja como somos capazes de construir um país. Em 2016, a questão tornou-se: veja como somos capazes de fazer uma festa.

Não dá para tratar essa mudança de paradigma, como tantos têm tratado, como se fosse a mesma coisa. O foco, aqui, são as interpretações simbólicas dessa Olimpíada num momento tão agudo do Brasil. E o papel que exercem sobre a construção da realidade.

Quando dizem orgulhosos que a Baía da Guanabara estava maravilhosa e que o Rio continua lindo, trata-se da festa. A pergunta que trata de um país é: mas a Baía da Guanabara foi despoluída? E a resposta é não. A resposta é: a Baía da Guanabara continua cheia de merda.

Quando dizem eufóricos que nenhum atleta pegou Zika vírus, a pergunta é: mas e a população do Rio? Está salva do Zika e, mais do que do Zika, da dengue? E as mulheres que tiveram e ainda terão crianças com sérios danos cerebrais, têm e terão acesso à proteção e à saúde? Estas são as perguntas que tratam do país – e não da festa.

Quando dizem esfuziantes que o Rio nunca foi tão seguro como nos 17 dias de Olimpíada e que os mais de 80.000 policiais e soldados deveriam continuar nas ruas para defender os cidadãos “de bem”, a pergunta é: e nas comunidades? Morreu gente nas favelas, e não apenas o soldado da Força Nacional Hélio Andrade. Em geral, ele é considerado a única baixa no período dos jogos, já que os demais mortos são aqueles que o país se acostumou a considerar “matáveis”. Pelo menos 31 pessoas morreram e outras 51 ficaram feridas em 95 tiroteios no Rio Olímpico, segundo a Anistia Internacional. Não interessa para a festa? Deveria interessar para o país.

Qual foi o custo financeiro dessa festa (gastos ainda à espera de transparência), para um estado que decretou situação de “calamidade pública” menos de dois meses antes do megaevento, para uma cidade falida e para um país em crise? Quem mede o sucesso ou quem diz o que é sucesso? Ou sucesso para quem? Certamente não para os milhares de “removidos” para a realização das obras.

Diante do país sem rosto, cola-se a cara gasta de sempre

E, importante, sucesso aos olhos de quem? Quando alguém exalta que a Baía da Guanabara estava límpida, o que se entende é que a pessoa comemora o feito de conseguir esconder por duas semanas a merda dos olhos dos “gringos”, a quem interessa mostrar que seguimos bonitos por natureza. E alegres, muito alegres.

A frase no Facebook é cristalina: “Somos um país de pés-rapados, mas arrasamos numa festa”. Diante do país sem rosto, cola-se a cara gasta de sempre, a de que somos muito bons em festa. E na festa somos cordiais, alegres e hospitaleiros. Assim, tenta-se tapar buracos que já não podem ser tapados. Conflitos que já não podem ser encobertos pela “festa da miscigenação”. Mitos em decomposição.

Este é um país em que as cenas de pessoas se espancando por usarem camisetas de cores diferentes se tornaram corriqueiras. Era de se prever que qualquer unidade, onde não há nenhuma, qualquer consenso, onde não há nenhum, seria agarrado por quem disputa a narrativa. É bastante fascinante que a unidade forjada, que o brasileiro único, “O” brasileiro, seja, de novo e mais uma vez, essa pessoa muito boa em festa. É bastante fascinante que os brasileiros, que – ainda bem – já não podem dizer quem são ou o que são, possam ter o conforto de uma identidade fugaz. Ainda que essa identidade seja a de “arrasar na festa”.

A unidade forjada é a do velho clichê do brasileiro bom de festa

O mais fascinante, porém, é que essa narrativa tem se imposto com muito pouca crítica. A Olimpíada se deu com o processo de impeachment em curso. Acabaram os jogos e começou o julgamento da presidente Dilma Rousseff no Senado. Em vez de interpretar os sentidos, disputa-se a autoria do “sucesso”. E, assim, em nome da agenda de ocasião, ou da eleição de 2018, ocultam-se – ou mesmo apagam-se – as contradições. Apresentada – e consensuada pelos vários atores políticos – como um legado de “sucesso”, a quem pertence a Olimpíada é tudo o que passa a interessar. Em vez de disputar o país, disputa-se a festa. É nesse nível o rebaixamento do debate.

É também assim que se invoca, de novo e mais uma vez, o Complexo de Vira-Lata, conceito do cronista Nelson Rodrigues, grande intérprete do futebol e do Brasil do século 20. Obviamente o vira-lata é sempre o outro. A suspeita de que a Olimpíada não iria funcionar – ou “dar certo” – seria fruto da falta de autoestima dos brasileiros, que se sentiriam inferiorizados diante dos gringos. Cogita-se também a possibilidade de que o verdadeiro vira-lata seja aquele que tem como única medida o olhar dos gringos e que necessita da sua aprovação para saber se tem valor. O curioso é que, na tese da viralatização, usa-se a festa como categoria totalizante. Se em alguns casos isso pode ser só um problema cognitivo, em outros soa como má fé.

É aí que entra um conceito essencial para compreender o momento: “superação”. A Olimpíada de 2009 foi sonhada como o coroamento de um país que já se superou. Ou que já se tornou sua própria promessa, com a melhoria da qualidade de vida de dezenas de milhões e a redução das desigualdades. Uma nação que já havia pavimentado seu lugar entre as grandes economias do mundo, um Brasil de “cidadania plena”, um “país de primeira classe”. Na Olimpíada de 2016, é a superação que passa a ser a qualidade de todo um país. A qualidade em si, o moto-contínuo. O looping eterno. O pé-rapado, que continua pé-rapado, mas que arrasa na festa.

É assim que nossos atletas tornam-se sempre “histórias de superação” a serem enaltecidas. Gente como Rafaela Silva e Isaquias Queiroz. Se eles superaram todas as desigualdades e assimetrias do Brasil e tornaram-se atletas capazes de ganhar medalhas no pódio, é um orgulho para eles. Mas é imperativo lembrar que venceram apesar do Brasil. E esse fato deveria ser motivo de vergonha para o país.

Consumido pela máquina de fazer dinheiro que envolve mídia e megaeventos, o que é exceção – vencer contra tudo e contra todos – é convertido em qualidade totalizante. Assim, é o Brasil inteiro que se torna o país “da superação”. É a Olimpíada “da superação”. O que deveria ser vergonha, o fato de o país não garantir a base mínima para suas crianças e jovens desenvolverem suas potencialidades no esporte – e também na matemática e na literatura –, é convertido em orgulho nacional.

A capacidade de superação é mística fartamente distribuída onde a renda é concentrada na mão de poucos e dos mesmos

Essa falsificação serve a muitas coisas. Entre elas, enriquecer muita gente e alimentar o entretenimento disfarçado de jornalismo de algumas redes de TV. Serve ainda a algo bem perverso, com graves consequências na vida concreta do país, que é estimular a crença de que basta ter vontade pessoal para conseguir vencer num país em que a maioria vive em terra arrasada, em escolas arrasadas, em insegurança alimentar, seja por desnutrição ou por obesidade. Assim, se você não vence, é problema seu. O Estado é deresponsabilizado, as distorções históricas são apagadas. E, portanto, não há razão para pensar em redistribuição de renda ou em reforma agrária ou em demarcação de terras tradicionais. O brasileiro, esse unicórnio, se supera. É pé-rapado mas arrasa numa festa.

É o discurso de Galvão Bueno, da Rede Globo, calculadamente lacrimoso: “O esporte é a ferramenta que faz Rafaela Silva, nascida na pobreza da Cidade de Deus, e o supercampeão Bernardinho, filho da classe média carioca, dividirem o mesmo sonho e chegarem ao mesmo lugar”. Qual é a mensagem dessa igualdade forjada em um dos países mais desiguais do mundo? No país da superação, não é preciso tocar nos privilégios, porque tudo depende da força de vontade individual. A capacidade de superação é mística fartamente distribuída onde a renda é concentrada na mão de poucos – e dos mesmos.

Deveria produzir alguma interrogação o fato de que alguém como Galvão Bueno, com tudo o que é e representa, tenha se tornado uma espécie de porta-voz do espírito olímpico. Discursos semelhantes ao dele, de exaltação da Olimpíada, foram repetidos até mesmo por intelectuais que até ontem exibiam pensamento complexo. Não só pela direita, mas também pela esquerda.

Parte da esquerda adere à mesma falsificação da mídia que no restante do tempo acusa de golpista

Para parte da direita, trata-se, entre outras coisas, de garantir que o país tem unidade para seguir após o impeachment, com a agenda conservadora em curso. O Brasil é o que sempre foi, o período Lula-Dilma apenas uma interrupção momentânea. Para uma parcela da esquerda, o ponto é garantir a Olimpíada como um legado usurpado de Lula, caso ele chegue às eleições de 2018. Em nome dos projetos de poder, sacrifica-se a complexidade e forja-se o consenso oportunista. O que não cabe na versão é relegado a questões de menor importância.

Mais uma vez, em nome da agenda de ocasião, parte da esquerda se cala diante das tantas falsificações da Olimpíada da Superação. E reedita uma espécie de conciliação imagética, uma espécie de trégua olímpica, com a mesma mídia que no restante do tempo acusam de golpista. Disputa-se a assinatura do espetáculo, o sucesso já foi pactuado.

Na mística da superação, quando aqueles que deveriam se superar sofrem uma derrota, são punidos como se traíssem todo um país. É neste momento que os conflitos aparecem, e o racismo, a homofobia e o machismo do povo alegre que arrasa numa festa explodem. Como tão bem compreendeu Rafaela Silva, que ao ser derrotada na Olimpíada de Londres, em 2012, foi chamada de “macaca” nas redes sociais, em tal volume e virulência que quase desistiu do judô. Em 2016, ao ganhar o ouro na sua categoria, virou heroína nacional. Ninguém dúvida que, se perdesse, seria de novo “macaca”.

A nadadora Joanna Maranhão conheceu bem a “cordialidade” do povo brasileiro ao ficar fora da semifinal dos 200m borboleta. Joanna, que anos atrás teve a coragem de denunciar que foi abusada por seu técnico quando menina, ouviu nas redes sociais que, por ter perdido, “deveria ser estuprada novamente”. O Brasil é homofóbico, machista, racista e xenófobo, denunciou Joanna, desafiando o país alegre e hospitaleiro – ou “o povo que se comportou muito bem nesta Olimpíada”. Joanna e Rafaela exibiram maturidade ao não se deixarem engolir pela máquina de entretenimento. Ao contrário, arriscaram-se a expor os conflitos quando ninguém queria saber deles.

O país não fracassa quando um atleta perde numa Olimpíada. Brasileiras como a judoca Rafaela Silva são vitoriosas apenas por chegarem vivas à idade adulta. Alcançar uma Olimpíada, ganhando ou não, é uma enormidade. O Brasil fracassa porque no mesmo período da Olimpíada em que Rafaela subiu ao pódio, jovens como ela foram executados a tiros bem perto dali.

O “sucesso” – ou a “superação” – do Brasil olímpico parece ser o de ter conseguido esconder dos olhos dos gringos a merda toda por duas semanas. E não apenas a da Baía da Guanabara. É verdade que um país pode ser medido não pelo seu sucesso, mas pela régua com que mede seu sucesso.

A Olimpíada, como conceito fechado, é grandiosa. Os atletas se dedicam duramente para fazer desse momento um espetáculo, para criar beleza. Fizeram espetáculo mesmo na Olimpíada de Berlim, em 1936, na Alemanha nazista. Uso esse exemplo radical porque ele ajuda a deixar mais claro que uma Olimpíada não pertence apenas aos atletas nem serve apenas à celebração dos povos. Parece óbvio, mas não é o que temos visto em tantas justificativas. Os usos de uma Olimpíada, assim como as narrativas sobre ela, são políticos, no sentido amplo (e seguidamente também no rasteiro). E a forma como cada um dela participa também é política.

A reedição do Complexo de Vira-Lata pode revelar a impossibilidade de criar conceitos originais num momento tão desafiador

É neste campo que chamo a atenção para “o Brasil provou que sabe fazer uma Olimpíada”. Há que se ter muito cuidado com quem coloca algo tão complexo na perspectiva do pessimismo/otimismo. Há que se ter considerável delicadeza mesmo com o conceito do Complexo de Vira-Lata. Não se sabe se ele foi revivido porque de fato faz eco, ou pela incapacidade de criar conceitos originais para um momento tão desafiador do Brasil. Tendo a apostar mais nesta segunda hipótese – e sigo defendendo que nossa crise é também de palavra. De linguagem e de estética.

Há uma diferença entre ser capaz de fazer uma festa, a medalha de ouro de 2016. E ser capaz de construir um país, a medalha de ouro de 2009. É preciso marcar essa diferença para não perder a Olimpíada do dia seguinte.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

ENCONTTRA_SELEÇÃO DE ESTUDANTES PARA BOLSA EM DOIS PROJETOS DE EXTENSÃO

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AVISO

Neste semestre, a UFPR distribuirá apenas 2 meses de bolsa de extensão. Esta situação precariza de fato a extensão na nossa universidade, precarizando a situação dos alunos que optam por participar da extensão nesse tripé supostamente fundamental nos princípios universitários, mas hoje manco: ensino-pesquisa-extensão.

Paralelamente, a Fundação Araucária (FA) mantem seu programa de apoio a cotistas solicitando selecionar dois bolsistas para bolsas de 12 meses. A FA tem dado bastantes problemas para manter o calendário de início das bolsas e para pagar em dia em alguns meses. Das duas indicações temos a possibilidade de ganhar duas bolsas ou uma só.

Essa é a situação em que acontece essa seleção. Não é, nem muito menos, uma situação confortável, mas é nosso ponto de partida e é bom que fique esclarecido. Ainda assim, separando o lado institucional do processo, a extensão que acontece acreditamos que permite uma vivência generosa da relação entre sociedade e universidade, permitindo-nos construir espaços de diálogo de saberes que merecem todo nosso respeito e dedicação.

 

Projetos de extensão:

1. CARTOGRAFIAS PARTICIPATIVAS COMO APROXIMAÇÃO A CONFLITOS TERRITORIAIS. 3ª FASE

Coordenador/Grupo de pesquisa:

Jorge Montenegro / Coletivo ENCONTTRA (Geografia/UFPR)

5 bolsas: 3 gerais (2 meses), 2 indicações para cotistas (12 meses)

Carga horária semanal: 12 h

2. OBSERVATÓRIO DA QUESTÃO AGRÁRIA NO PARANÁ

Coordenadores/Grupo de pesquisa:

Jorge Montenegro e Ângela M. Katuta/ Coletivo ENCONTTRA (Geografia/UFPR)

1 voluntário (12 meses)

Carga horária semanal: 6 h

 

Vigência e valor das bolsas:

2 meses – R$ 400,00 / mês (Bolsa UFPR)

12 meses – R$ 400,00 / mês (Bolsa FA)

 

Síntese das atividades a serem realizadas pelo bolsista:

CARTOGRAFIAS PARTICIPATIVAS COMO APROXIMAÇÃO A CONFLITOS TERRITORIAIS. 3ª FASE

Levantamento de informações sobre conflitos territoriais envolvendo povos e comunidades tradicionais e outros movimentos de luta pela terra e o território; levantamento bibliográfico e documental sobre cartografias participativas, povos e comunidades tradicionais, movimentos sociais, etc.; participação junto ao Coletivo ENCONTTRA de estudos sobre as temáticas relacionadas ao projeto; participação em oficinas de cartografias participativas (nos locais das comunidades); formatação das cartografias a serem realizadas durante o projeto

OBSERVATÓRIO DA QUESTÃO AGRÁRIA NO PARANÁ

Buscar, propor e elaborar notícias relacionadas com a Questão Agrária no Paraná. Alimentar a base de dados de trabalhos acadêmicos sobre o tema. Analisar, elaborar e publicar dados e cartografias que permitam entender a dinâmica espacial da Questão Agrária no Estado. Organizar e participar dos eventos, trabalhos de campo, oficinas, cursos, materiais didáticos, etc. que são os produtos do projeto. Participar de eventos de extensão e de pesquisa sobre os temas trabalhados

 

Seleção:

Dia 11/08, às 15:30 h

Local:

Sala do Coletivo ENCONTTRA

(Centro Politécnico, Sala 307, Ed. JJ Bigarella)

 

Critérios de seleção:

Será realizada uma entrevista individual com os candidatos.

Requisitos para ser candidato a bolsista de extensão:

  1. Cotista

Consultar edital

(http://www.proec.ufpr.br/download/extensao/bolsas/Auaucaria/2016-EDITAL%20PIBIS%20FA%202016-2017.doc)

  1. Geral

Consultar edital

(http://www.proec.ufpr.br/download/extensao/bolsas/2016/Edital%20PROEC%20BolsaExtensao%202%20meses.doc)

Cinco professores e um jornalista morrem após forte repressão em Oaxaca, no México

Forças policiais atacam manifestantes, em greve desde o último dia 15 de maio, contra reformas propostas por Peña Nieto

De Brasil de Fato

São Paulo , 20 de Junho de 2016 às 11:38
Durante manifestações deste domingo (19), redes sociais circularam vídeos e imagens da forte repressão policial  - Créditos: Resumen Latinoamericano
Durante manifestações deste domingo (19), redes sociais circularam vídeos e imagens da forte repressão policial / Resumen Latinoamericano

Trabalhadores que integram a Confederação Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE) do Mexico iniciaram, no último dia 15 de maio, após três anos de luta, uma greve geral para dizer não a reforma educacional proposta pelo governo do presidente Enrique Peña Nieto, que prevê cortes nos direitos trabalhistas. Segundo Graciela Rangel Santiago, responsável de relações exteriores da CNTE, a luta dos docentes é contra uma reforma que “não tem nada de educativa”. Em contato com o Brasil de Fato, Graciela explicou que a CNTE resistirá incansavelmente contra essa proposta, que pretende atacar os direitos conquistados.

A greve dos professores atinge 28 dos 32 estado mexicanos, mas se concentra nos estados do sul, em Chiapas, Oaxaca e Michoacan. No domingo (19), forças da polícia estadual de Oaxaca e a polícia federal mexicana se dirigiram à Asunción Nochixtlán, município próximo a capital oaxaqueña, para despejar os professores que bloqueavam a estrada Oaxaca-México como forma de protesto.

De acordo com o jornal La Jornada, a operação repressiva começou por volta das 10:30h e se estendeu até o inicio da noite, deixando como saldo 6 mortos, mais de 90 feridos e 21 detidos. A ação policial, que contou com armas de fogo, bombas de gás lacrimogênio, helicópteros e centenas de agentes, fez da estrada um campo de batalha. Os manifestantes resistiram, com o apoio de pais, alunos e pessoas contrárias à reforma, que ajudaram a construir barricadas para evitar a aproximação dos policiais.

A CNTE informou que cinco dos mortos eram professores (Andrés Aguilar, de 29 anos; Yalid Jiménez, de 22; Óscar Santiago, de 22; Jesús Cadena, de 19 e Anselmo Cruz, sem idade divulgada). O outro morto durante o ataque foi o repórter local Elpidio Ramos, que fazia a cobertura do confronto para o jornal regional El Sur.

Por volta da meia noite, a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) emitiu um comunicado informando que serão tomadas medidas cautelares para garantir a adequada atenção médica dos feridos, assim como garantir que a lei seja respeitada “conforme os protocolos e os padrões internacionais, privilegiando a todo momento o diálogo”. A Comissão enviará peritos e pessoal de apoio à Oaxaca para vigiar a legalidade do operações.

Fazem com você o que você fez conosco; mas nem assim, Dilma…

Hoje você se rebaixou a inaugurar a mais nefasta das obras do governo petista, aquela que manchou a imagem do Brasil em todo o mundo. Uma iniciativa que você herdou das mesmas mentes doentias que te torturaram na prisão.
Publicado em 05 de maio de 2016
Movimento Xingu Vivo para Sempre
xingu vivoDilma

Hoje você veio até o nosso rio Xingu inaugurar Belo Monte, nosso maior pesadelo. Você veio nesses tempos em que tanto se fala de violação do Estado Democrático, dizer que tem imenso orgulho das escolhas que fez, entre elas a construção desta usina.

Você nunca nos ouviu e nunca nos compreendeu, e nós, que sabíamos de motivos outros para esta sua escolha, muito diversos do “Bem do País”, hoje não te compreendemos.

Você veio ao nosso território inaugurar uma obra corrupta em sua raiz. Uma obra que enriqueceu de forma criminosa seus ex-aliados (e hoje inimigos). Você vendeu caro as nossas vidas para canalhas que hoje cospem nos pratos de porcelana chinesa em que comeram o que você lhes serviu, enquanto nós começávamos a passar fome e frio. Que tipo de pessoas sente imenso orgulho de algo assim?

Hoje você disse “eu sou vítima de uma injustiça”, e reclamou de ritos ilegais que te atingem; mas você tratou com escarnio dezenas de processos jurídicos contra Belo Monte, inclusive na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, a quem você apelou quando se sentiu ameaçada em seu poder. Você fala em golpe do Congresso contra a sua pessoa, mas fez com que todas as nossas frágeis possibilidades de defesa no Judiciário fossem anuladas por meio da AGU, via nefastas Suspensões de Segurança. Entre você e nós, não temos dúvida de quem foi mais privado de Justiça.

Hoje você sobrevoou nosso rio, Dilma, mas obviamente não viu e cheirou a podridão das centenas de toneladas de peixes mortos que a sua usina produz diariamente, e que geraram multa milionária à sua Norte Energia. Não se importando, você se atreve a falar tolices sobre preservação do meio ambiente.

Você também falou em crescimento e prosperidade; e convidou a pior espécie de empreendimentos – as mineradoras – a se instalarem nos nossos quintais, prometendo-lhes generosamente condições adequadas e energia. Nem lhe molestou o fato de que já sofremos com a mineradora canadense Belo Sun, que tenta nos arrancar o que restou de território e rio para fazer a maior mina de ouro a céu aberto do país na Volta Grande do Xingu.

Mas em que se baseia seu discurso otimista, Dilma? Por acaso não lhe parece relevante que o próprio BNDES declarou Belo Monte inviável economicamente? Não lhe parece importante o fato de que esta usina maldita só será concluída se a Eletrobrás comprar a própria energia a preços exorbitantemente mais altos do que os de mercado?

Ao nosso ver, hoje você se rebaixou a inaugurar a mais nefasta das obras do governo petista, aquela que manchou a imagem do Brasil em todo o mundo. Uma iniciativa que você herdou das mesmas mentes doentias que te torturaram na prisão. Nem assim, Dilma, você se dispôs a mostrar clemencia com a nossa dor. Nem no momento em que você sente na pele o que é ser estraçalhada por forças maiores do que você, forças que não têm o menor apreço pela justiça ou pelas leis, você foi capaz de ter empatia conosco. Nem assim, Dilma…

Que os Encantados tenham piedade de nós, porque você nunca foi capaz

Altamira, 05 de maio de 2016

Xingu Vivo para Sempre

P.S.
Aproveitamos esta carta à Dilma para tornar público o nosso repúdio e a nossa indignação com o grupo que, representado pelo senhor João Batista Uchoa, coordenador geral da Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP), se arvorou o direito de adular o “Belo Monte de governo” em nome da sociedade civil de Altamira. Não sabemos se este senhor, que fez seu discurso lamentável no palco de Dilma, realmente falou em nome da Frente Brasil Popular, do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB), da CUT e da Contag, como afirmou. Respeitamos quem se oponha ao golpe porque respeitamos as liberdades democráticas de qualquer cidadão ou organização. Mas não respeitamos puxa-sacos do governo num ato de inauguração deste feito horrendo que é Belo Monte. Alguns setores foram beneficiados por políticas públicas? Ora, este é nosso DIREITO. Nada tem a ver com Belo Monte! Política pública é DIREITO, não propina. Enaltecer um projeto que arrancou o chão de tantas pessoas é baixo, muito baixo!

belo monte

Cronologia aponta massacre de trabalhadores rurais em Quedas do Iguaçu: Polícia Militar emboscou e atirou para matar

25/04/16, Terra de Direitos

araupel

 

O ataque promovido pela Polícia Militar a trabalhadores rurais sem terra, no último dia 7, em Quedas do Iguaçu/PR, é  contado em cronologia construída a partir da coleta de depoimentos das vítimas. As falas revelam que trabalhadores sem terra foram vítimas de massacre – em emboscada, Polícia Militar atirou para matar. Dois trabalhadores foram mortos e outros dois ficaram gravemente feridos.

A cronologia dos fatos aponta para irregularidades na investigação da Polícia Militar e vai contra a versão apresentada pela polícia. Esse é o terceiro caso de assassinato de trabalhadores rurais sem terra com a participação da Polícia Militar do Paraná. Até o momento, mentores e executores dos crimes anteriores não foram punidos.

Ver cronologia

Trabalhadores Sem Terra foram vítimas de massacre no Paraná

Polícia Militar emboscou e atirou para matar

Em 7 de abril de 2016, a dez dias do vigésimo aniversário do massacre de Eldorado dos Carajás, a Polícia Militar do Estado do Paraná assassinou a tiros de pistola e fuzil os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Vilmar Bordim, 44 anos, casado, pai de três filhos e Leonir Orback, 25 anos, que deixou dois filhos e a esposa grávida aos nove meses. A Polícia Militar também feriu a tiros, gravemente, outros dois integrantes do MST, Pedro Francelino e Henrique Gustavo Souza Pratti.

No mesmo dia, a Polícia Militar tratou de apresentar uma versão para os fatos, indicando que os responsáveis pela ação seriam os integrantes do MST. Na versão contada pela PM, os trabalhadores teriam “atirado para o alto”, como se tal fato justificasse a ação truculenta e desmedida da Polícia Militar do Estado do Paraná, no que se configura uma verdadeiro massacre.

A versão montada pela Policia Militar foi veiculada amplamente durante o Jornal Nacional. A divulgação serviria para referendar uma versão inverídica dos fatos, de modo a culpar o MST e inocentar os policiais assassinos.

Contudo, o avanço de investigações imparciais conduzidas pela Polícia Federal e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) desmontam a versão apresentada pela Polícia Militar, e indicam que os trabalhadores sem terra foram vítimas de agressões injustificáveis. Não houve qualquer situação que autorizasse a Polícia Militar a atacar a tiros, de forma extremamente violenta, os integrantes do MST.

 

Emboscada armada: sem terras são vítimas.

Desde seis de julho de 2015 cerca de 1.200 famílias de trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra ocupam uma área de cerca de 10.780 hectares, localizada no município de Quedas do Iguaçu.  A área ocupada pertence à União, uma vez que está inserida dentro do perímetro da faixa de fronteira. Entretanto, a empresa Araupel ocupa irregularmente a área, e os supostos títulos de propriedade da Araupel já foram declarados nulos na Justiça Federal, em dezembro de 2015. A ocupação do MST denuncia a grilagem de terras na região, ao tempo em que tem o objetivo de pressionar para que as terras públicas se tornem assentamentos da Reforma Agrária.

Já no início da ocupação, em julho de 2015, os integrantes do MST bloquearam, com terra e pedaços de madeira, uma estrada de terra, dentro da área, que liga os fundos do acampamento à rodovia PR 484. A obstrução dessa estrada de terra foi realizada para evitar a entrada de caçadores, madeireiros ilegais e outras pessoas que pudessem vir a ameaçar os acampados e acampadas.

Na tarde de quinta-feira (07), os integrantes do Acampamento Dom Tomás Balduíno tomaram ciência de que o bloqueio da estrada de terra havia sido retirado por alguém, estando à estrada desimpedida, possibilitando a entrada de quaisquer pessoas pelos fundos do acampamento. Diante de tal situação um grupo de integrantes do acampamento se reuniu para verificar a informação de que a estrada teria sido aberta para, se necessário, fechá-la novamente.

Munidos de garrafas de água, enxadas, foices e facões – suas ferramentas de trabalho – aproximadamente 40 pessoas, entre homens e mulheres, se dirigiram ao local. O grupo era transportado por três motos, à frente, seguidas por uma caminhonete e um ônibus onde estava um grupo maior, de aproximadamente 15 pessoas.

A estrada por onde seguiam é rodeada por monocultura de Pinus, e apresenta em suas margens, e mesmo na via, mato crescido, uma vez que essa estrada não é utilizada com regularidade. Um dos motoqueiros do comboio de trabalhadores se distanciou do restante do grupo cerca de cem metros e, em uma curva da estrada, foi abordado, de forma repentina, por um grupo de aproximadamente dez Policiais Militares. Os Policiais mandaram o trabalhador descer da moto e caminhar até eles de costas, com as mãos na cabeça, ordem à qual obedeceu prontamente.

Os policiais revistaram o trabalhador e encontraram apenas sua carteira e um telefone celular. Em seguida, os Policiais Militares ouviram o som dos motores dos outros veículos, momento em que puxaram o rapaz para o canto da estrada e se embrenharam no mato. Os Policiais Militares, armados de pistolas e fuzis, bem com munidos de escudos balísticos, se entocaiaram no mato, à beira da estrada, de modo a esperar e surpreender os integrantes do MST que vinham em direção a eles.

Quando os outros dois motoqueiros chegaram à curva da estrada em que a polícia os esperava de tocaia, os Militares, fortemente armados, saltaram do mato e gritaram, de modo a obrigar os integrantes do MST que estavam nas motos a deitar no chão. Nesse mesmo momento uma caminhonete com integrantes do MST se aproximou do local e parou bruscamente, uma vez que o motorista da caminhonete viu, há cerca de 60 metros, que os integrantes do MST que estavam nas motos haviam descido delas.

disparos

Assim que a caminhonete parou os integrantes do movimento que estavam dentro dela, na caçamba e na cabine, desceram do veículo. No momento em que os trabalhadores desciam da caminhonete, praticamente no mesmo instante que os outros dois trabalhadores desciam de suas motos, a Polícia Militar começou a disparar em direção à caminhonete. Segundo a própria Polícia Militar realizaram-se cerca de 130 disparos de armas de fogo, entre rajadas de fuzil e tiros de pistola ponto 40.

Iniciado o ataque pela Polícia Militar, aqueles e aquelas que estavam na parte de cima da caminhonete conseguem descer, e imediatamente correm na direção oposta à dos tiros, avisando os demais companheiros que se tratava de uma emboscada. As pessoas que estavam no interior da cabine têm mais dificuldade para fugir.Vilmar Bordim, que estava dirigindo a caminhonete, é atingido fatalmente com um tiro nas costas logo ao sair do veículo. Leonir Orback, que estava sentado atrás do motorista, ao tentar fugir também recebe um tiro pelas costas.

Henrique Gustavo Souza Pratti estava em cima da caminhonete, e ao tentar fugir para se esconder recebeu um tiro que o atingiu por trás, na perna, derrubando-o imediatamente no chão. Henrique conta que quando estava caído viu um de seus companheiros ser atingido pelas costas.

“Eu caí, e ai vinha um pessoal correndo que conseguiu passar por trás do ônibus e ir embora, e o rapaz que estava correndo levou um tiro e caiu ali do lado, que foi um dos que morreram”, conta.

As pessoas que estavam no ônibus, ao ouvirem os tiros, também correram para o mato –  algumas pularam a janela para conseguir se salvar. Duas pessoas não conseguiram sair do ônibus e ficaram ali se escondendo dos disparos.

Segundo Pratti, a polícia avançou, a tiros, até o local onde eles estavam caídos. Assim que os Policiais Militares chegaram ao local em que se encontravam as pessoas vítimas dos disparos, um grupo de policiais ficou na área e outro foi chamar reforços. A polícia não socorreu as vítimas imediatamente, e estas ficaram no local por cerca de uma hora e vinte minutos, até chegar a ambulância para socorrê-los.

Pedro Francelino, que foi atingido na nádega e no braço ao tentar fugir, também caiu em meio ao mato, e não consegui se levantar pelos ferimentos das balas. “O rapaz que estava machucado que caiu no mato, eles falavam ‘vem para a estrada’, mas ele dizia que não podia, pois estava machucado, baleado. Ele se agarrou em alguma árvore e veio, aí eles o revistaram para ver se não havia nem uma arma”, diz Prati quanto à situação vivida por Pedro.

 

Momentos de tensão: polícia e ameaças

Segundo Pratti, os momentos que passaram no local esperando pelo SAMU foram tensos, pois as ameaças eram constantes – sem contar que ele e o outro rapaz ferido perderam bastante sangue durante a espera.

“Foi uma pressão psicológica que eu nunca tinha visto na minha vida, que eu nunca tinha sofrido. Ameaça de morte o tempo inteiro, que se o pessoal voltasse de lá eles iam passar fogo em mim, nos dois que estavam no ônibus e no outro rapaz que estava machucado”.

Até a chegada do socorro os policiais militares mexeram na cena do crime, tiraram o ônibus e a camionete do lugar, e retiraram os dois corpos, de Vilmar Bordin e Leonir Orback, das posições em que estavam.

Na sexta-feira (8), um dia após o acontecido, a Polícia Civil levou a caminhonete para a perícia. O ônibus e as motos, porém, não foram levados.

 

Vítimas foram presas. Policiais assassinos foram soltos.

As duas pessoas que não conseguiram sair a tempo do ônibus foram levadas à delegacia, prestaram depoimento e foram soltas na mesma noite. Henrique Gustavo Souza Pratti e Pedro Francelino, devido à gravidade dos ferimentos, foram levados a hospitais do município de Cascavel, PR.

Os dois feridos foram autuados em flagrante pela Delegada de Policia Civil, Ana Karine Turbay Palodetto, por suposta tentativa de homicídio qualificado e porte ilegal de arma de fogo. O Ministério Público requereu a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva, pedido ao qual atendeu prontamente a juíza responsável, sob a alegação de constituírem, Pedro e Henrique, ainda que gravemente feridos, perigo à ordem pública.

Destaca-se que a Polícia Militar, autora do massacre, diz que foram supostamente encontradas duas armas de fogo no local, e que estas estavam com Vilmar Bordin e Leonir Orback. Segundo laudo da própria policia, as duas armas se encontram com os cartuchos intactos, ou seja, não foram disparadas. Não foram encontradas outras armas de fogo.

Com isso, não há indícios de que Henrique e Pedro estivessem portando qualquer arma de fogo. Se até os Policiais Militares que participaram do massacre não acusaram os dois trabalhadores de disparar ou mesmo de estar com alguma arma, por que as vítimas, hospitalizadas, foram presas?

No período em que Pedro e Henrique estiveram presos no hospital, seus advogados foram impedidos, por seis dias, de terem com eles conversas reservadas, o que constitui grave violação à lei n° 8.906/94.

E as ilegalidades não param por aí. De forma completamente arbitrária, Pedro Francelino foi ouvido pela Delegada Ane Karine sem a presença de seus advogados, logo após haver sido submetido a uma cirurgia e uma transfusão de sangue, quando ainda estava sob efeito de sedativos e psicologicamente abalado com o ocorrido. Como se não bastasse, o áudio desse depoimento colhido ilegalmente vazou, e uma parte recortada da gravação foi reproduzida no Jornal Nacional.

Henrique teve alta na terça-feira, dia 12, e foi levado para a 15° Subdivisão Policial de Cascavel, que não possui condições estruturais mínimas para o atendimento das recomendações médicas necessárias para sua recuperação, conforme alegou o próprio delegado de Polícia Mario Chofifi, em ofício encaminhado ao Juízo de Quedas do Iguaçu. No dia seguinte, os advogados, apoiados por parecer do Ministério Público, apresentam pedido de conversão da prisão preventiva em prisão domiciliar, atendido de pronto pela juíza responsável.

Pedro Francelino recebeu alta na quinta-feira (14), um dia após realizar uma última cirurgia no braço, sendo que também foi encaminhado para a 15ª SDP de Cascavel. Avaliando que, da mesma forma que Henrique, as condições de saúde de Pedro também não o permitiam permanecer na cadeia, os advogados de defesa entraram com um pedido de prisão domiciliar que foi atendido na segunda-feira (18).

Tanto Henrique quanto Pedro estão presos por homicídio qualificado e porte ilegal de arma. Para os advogados, não existe fundamento legal para as prisões, pois os integrantes do MST foram vítimas de um ataque.

Ainda na quinta-feira (14), nove pessoas ligadas ao movimento, que estavam presentes na hora do ataque, foram ouvidas pela Polícia Federal e Ministério Público, no município de Cascavel. Os depoimentos foram acompanhados pelos advogados da Terra de Direitos.

A Polícia Civil finalizou o Inquérito Policial no dia 15 de abril. A delegada Ane Karine, que presidiu o Inquérito, afirmou não haver provas suficientes para concluir quem iniciou os disparos. O Inquérito foi encaminhado para o Ministério Público, que deve devolvê-lo à Polícia Civil concedendo mais prazo para realizar as investigações. Outras duas investigações foram abertas no âmbito do GAECO e da Polícia Federal.

 

O passado condena a Polícia Militar do Estado do Paraná: violência e impunidade contra o MST

Nos últimos anos foram assassinados, a tiros e em conflitos coletivos pela posse da terra rural, dezessete integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Estado do Paraná.[1] Apenas nos casos dos assassinatos de Sebastião Camargo (1998) e Eduardo Anghinoni (1999) houve responsabilização penal com trânsito em julgado, sem que, contudo, fosse possível responsabilizar mandantes.

Quanto aos casos de assassinatos de integrantes do MST, cumpre relembrar que Diniz Bento da Silva (1993) e Antônio Tavares Pereira (2000) foram assassinados a tiros pela Polícia Militar do Estado do Paraná, e até o momento não foi possível identificar e responsabilizar criminalmente executores e mandantes dos crimes.

Nesse contexto de impunidade o Estado brasileiro foi condenado na Corte Interamericana e Direitos Humanos por ausência de investigação eficaz e responsabilização criminal pelo homicídio do trabalhador rural sem terra Sétimo Garibaldi (1998), tendo a referida Corte sentenciado que “uma das formas mais relevantes para combater a situação de impunidade em casos como o presente é investigar a atuação dos agentes estatais envolvidos”, bem como que a ausência de combate à violência “propicia a repetição crônica”.

Ademais no ano de 2009 o Estado brasileiro foi condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos por ter a Polícia Militar do Estado do Paraná, com anuência do Poder Judiciário, realizado escutas telefônicas ilegais contra membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Nesse mesmo contexto de impunidade a Comissão Interamericana de Direitos Humanos recomendou ao Estado brasileiro, nos casos dos assassinatos de Diniz Bento da Silva (1993) e Sebastião Camargo (1998), dando conta da situação de impunidade relativas aos crimes cometidos contra integrante do MST no estado do Paraná, a realização de investigações efetivas, as quais nunca se materializaram efetivamente.

Espera-se que o massacre de Quedas do Iguaçu não tenha o mesmo desfecho de impunidade. A atuação da Polícia Federal e do Gaeco tem o potencial de apresentar a verdade sobre os fatos ocorridos, restabelecendo a verdade sobre os fatos e possibilitando a punição dos Policiais Militares.

cronologia

[1] Desde 1993 foram assassinados no estado do Paraná: 1-Diniz Bento da Silva (1993); 2-Vanderlei das Neves (1997); 3-José Alves dos Santos (1997) 4-Sebastião Camargo (1998); 5-Sétimo Garibaldi (1998); 6-Eduardo Anghinoni (1999); 7-Sebastião da Maia (2000) 8-Antônio Tavares (2000); 9-Paulo Sérgio Brasil (2003), 10-Anarolino Vial (2003); 11-Dogival José Viana (2003); 12-Elias de Meura (2004);  13-Eduardo Moreira da Silva (2004); 14- Valmir Mota de Oliveira (2007); 15- Eli Dallenol (2008) 16-Vilmar Bordim(2016) e 17-Leomar Bhorbak (2016)

CARTA À PREFEITURA DE MANDIRITUBA DIANTE DOS GRAVES FATOS OCORRIDOS NO FAXINAL ESPIGÃO DAS ANTAS (MANDIRITUBA-PARANÁ)

DSC_0170Nos dias 28 e 29 de março a Prefeitura de Mandirituba arrancou mata-burros no faxinal Espigão das Antas sem consultar a comunidade. O mata-burro serve para evitar que os animais criados à solta dentro do faxinal saiam para as lavouras, o que cria enormes prejuízos e risco de acidentes nas estradas próximas. O mata-burro faz parte do faxinal, território tradicionalmente ocupado pelos faxinalenses, e mantém seus limites e seus costumes. Nesse sentido, o ato da Prefeitura de Mandirituba arrancando os mata-burros significa ferir os direitos dos faxinalenses das comunidades de Espigão das Antas, Meleiro e Pedra Preta (três comunidades, mas um só criadouro comunitário) que se autodefiniram como comunidade tradicional em 2010, atestada em declaração emitida pelo Instituto de Terras, Cartografia e Geodésia do Paraná (ITCG).

São direitos reconhecidos internacionalmente, através da Convenção 169 da Organização Mundial do Trabalho sobre povos indígenas e tribais, nacionalmente, por meio do Decreto 6.040 que institui a Política Nacional de Povos e Comunidades ou estadualmente, mediante a Lei Estadual 15.673 que reconhece os faxinais e sua territorialidade (como amplamente apontado na carta em anexo onde os faxinalenses denunciam o ato da Prefeitura de Mandirituba).

Diante de tão graves fatos, solicitamos que a Prefeitura de Mandirituba se reúna com urgência com as comunidades faxinalenses para evitar que os prejuízos às mesmas continuem e exista uma real intenção de respeitar seu território e sua forma de vida, como o conjunto de leis mencionado exige.

Mas não se trata apenas de respeitar a lei, os faxinalenses têm sido sujeitos fundamentais para a preservação da natureza, mantendo a diversidade de fauna e flora do Estado do Paraná, são reconhecidos pela sua luta em manter tradições, modos de vida e em conseguir que o mal chamado desenvolvimento não desmate e contamine para benefício de poucos, por todos esses motivos demandamos que a Prefeitura de Mandirituba acabe com as continuas retaliações às comunidades faxinalenses de seu município e veja nelas a parceria necessária para promover formas de viver com mais qualidade e menos impactos.

Apoiam:

  1. Coletivo ENCONTTRA, Departamento de Geografia, Universidade Federal do Paraná
  2. Centro de Pesquisa e Extensão em Direito Socioambiental (CEPEDIS), Pontifícia Universidade Católica
  3. Laboratório de Análises Territoriais Campo-Cidade (LATEC), Departamento de Geografia, Universidade Estadual de Londrina
  4. Centro de Estudos de Geografia do Trabalho (CEGeT), Universidade Estadual de São Paulo
  5. Associação dos Geógrafos Brasileiros, Seção Local de Marechal Cândido Rondon (AGB-MCR)
  6. GEOLUTAS/Laboratório e Grupo de Pesquisa de Geografia das Lutas no Campo e na Cidade, Curso de Geografia, Universidade Estadual do Oeste do Paraná
  7. Laboratório GeoRedes, Departamento de Geografia, Universidade de Brasília
  8. Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais – MESPT, Centro de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília
  9. Grupo de Estudos Territoriais, Departamento de Geografia, Universidade Estadual do Oeste do Paraná
  10. Observatório da Questão Agrária do Paraná
  11. Curso de Tecnologia em Orientação Comunitária, Setor Litoral-Universidade Federal do Paraná
  12. Movimento de Assessoria Jurídica Universitária Popular “Isabel da Silva”, Universidade Federal do Paraná
  13. CEFURIA – Centro de formação Urbano-Rural Irmão Araújo
  14. Equipe da FEIRA AGROECOLÓGICA, Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná /Irati
  15. Grupo de Estudios sobre Ecologia Politica, Comunidades y Derechos, Catedra de Fundamentos de Ecologia Politica, Instituto de Investigaciones Gino Germani – Universidad de Buenos Aires (Argentina)
  16. Grupo de Estudios Rurales y Grupo de Estudios sobre Movimientos Sociales de América Latina Instituto de Investigaciones Gino Germani – Universidad de Buenos Aires (Argentina)
  17. Doctorado en Estudios Sociales Agrarios. Centro de Estudios Avanzados / Facultad de Ciencias Agropecuarias – Universidad Nacional de Córdoba
  18. Programa de Estudios Conflictividad territorial, Crítica al Desarrollo y alternativas Societales. Centro de Investigaciones y Estudios sobre la Cultura y la Sociedad. CONICET – Universidad Nacional de Córdoba
  19. AGB / Curitiba – Associação dos Geógrafos Brasileiros, Seção Local Curitiba
  20. Coletivo ENCONTTRA, Departamento de Geografia, Universidade Federal do Paraná
  21. Centro de Pesquisa e Extensão em Direito Socioambiental (CEPEDIS), Pontifícia Universidade Católica
  22. Laboratório de Análises Territoriais Campo-Cidade (LATEC), Departamento de Geografia, Universidade Estadual de Londrina
  23. Centro de Estudos de Geografia do Trabalho (CEGeT), Universidade Estadual de São Paulo
  24. Associação dos Geógrafos Brasileiros, Seção Local de Marechal Cândido Rondon (AGB-MCR)
  25. GEOLUTAS/Laboratório e Grupo de Pesquisa de Geografia das Lutas no Campo e na Cidade, Curso de Geografia, Universidade Estadual do Oeste do Paraná
  26. Laboratório GeoRedes, Departamento de Geografia, Universidade de Brasília
  27. Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais – MESPT, Centro de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília
  28. Grupo de Estudos Territoriais, Departamento de Geografia, Universidade Estadual do Oeste do Paraná
  29. Observatório da Questão Agrária do Paraná
  30. Curso de Tecnologia em Orientação Comunitária, Setor Litoral-Universidade Federal do Paraná
  31. Movimento de Assessoria Jurídica Universitária Popular “Isabel da Silva”, Universidade Federal do Paraná
  32. CEFURIA – Centro de formação Urbano-Rural Irmão Araújo
  33. Equipe da FEIRA AGROECOLÓGICA, Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná /Irati
  34. Grupo de Estudios sobre Ecologia Politica, Comunidades y Derechos, Catedra de Fundamentos de Ecologia Politica, Instituto de Investigaciones Gino Germani – Universidad de Buenos Aires (Argentina)
  35. Grupo de Estudios Rurales y Grupo de Estudios sobre Movimientos Sociales de América Latina Instituto de Investigaciones Gino Germani – Universidad de Buenos Aires (Argentina)
  36. Doctorado en Estudios Sociales Agrarios. Centro de Estudios Avanzados / Facultad de Ciencias Agropecuarias – Universidad Nacional de Córdoba
  37. Programa de Estudios Conflictividad territorial, Crítica al Desarrollo y alternativas Societales. Centro de Investigaciones y Estudios sobre la Cultura y la Sociedad. CONICET – Universidad Nacional de Córdoba
  38. AGB / Curitiba – Associação dos Geógrafos Brasileiros, Seção Local Curitiba
  39. Projeto Nova Cartografia Social da Amazonia
  40. Francisco Luciano Concheiro Bórquez, Pós-graduação em Desenvolvimento Rural, Universidad Autónoma Metropolitana-Xochimilco (México)
  41. Willian Simões, Departamento de Geografia, Universidade Federal da Fronteira Sul/Chapecó-SC
  42. Carlos Walter Porto-Gonçalves – Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Coordenador do Lemto – Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades
  43. Adelita Staniski – Universidade Estadual de Ponte Grossa
  44. Almir Nabozny – Universidade Estadual de Ponte Grossa
  45. Nícolas Floriani – Universidade Estadual de Ponte Grossa
  46. Ben-Hur Demeneck – jornalista
  47. Rodrigo Rossi – Secretaria de Estado de Educação-Paraná
  48. Cecilia Hauresko – Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná/Guarapuava
  49. Dimas Floriani – Prof. Titular Programa de Pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento/Universidade federal do Paraná
  50. Andrea Tedesco – professora Universidade Estadual de Ponte Grossa
  51. Gustavo Olesko – pesquisador Universidade de São Paulo
  52. André de Souza Fedel – Geógrafo, Educador Popular – CEFURIA
  53. Fernanda Keiko Ikuta, Departamento de Geografia, Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), Campus de Irati
  54. Anne Geraldi Pimentel – Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), Campus de Irati

 

 

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