Carta dos indígenas Avá-Guarani da Tekoha Yhovy em Guaíra/PR

A Tekoha Yhovy vem por meio desta carta feita na própria Tekoha que fica próximo ao Bairro Eletrosul em Guaíra vem através deste prerstar solidariedade as familhas que ja perderam seus entes queridos durante esses longos anos de luta pela terra que ja se arrasta por décadas,e pedir urgentemente ações do MPF que sejamos atendidos e que os processos demarcatórios sejam agilizados pela FUNAI.
Essa carta foi escrita na Tekoha Y’hovy, limítrofe ao Bairro Eletrosul, Guaíra – PR.
Nós lideranças Guaranis do Oeste do Paraná, em específico Guaíra e Terra Roxa, viemos através deste manifestar em Público a nossa preocupação em relação as “mortes por suicídio” que vem acontecendo nas nossas Tekohas.
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Como sabemos a sociedade ao nosso redor tem nos tratado como inimigos, como pragas ou seres desprezíveis, desde que se iniciou uma Campanha Contra a demarcação de nossas terras, tendo participação de vários municípios, sindicatos rurais e sindicatos de comerciantes, sendo orientados também por Políticos da Bancada Ruralista e Bancada Evangélica. Nesse período de campanha que acirrou o racismo e o preconceito contra nosso povo Guarani, nosso povo ficou acuado sem liberdade de sair para cidade e os jovens de ir pra escola, e funcionários indígenas foram demitidos de todos campos de trabalho, onde já sabemos que a maioria da mão de obra era indígena, com isso jovens sem perspectivas de ter uma formação escolar e profissional levou jovens a cometer suicídio, por ver como somos tratados pela sociedade e pelo Estado brasileiro, desde sempre nos foram negados nossos direitos sobre as Terras Tradicionais, direito a políticas públicas de saúde e educação, e também o direito a existência, já que os políticos sempre negaram nossa existência dizendo que somos estrangeiros ou Paraguaios travestidos de índios.
Isso também levou as escolas públicas da região a trancarem as crianças indígenas nas salas de aula para não comerem a merenda das escolas na hora do recreio e, também, para não se misturarem aos alunos não indígenas, e os casos de pais de alunos que passaram a querer assistir às aulas nas escolas, com a justificativa de que os “indígenas representavam perigos aos seus filhos” e também os casos das escolas que passaram a negar vagas para os alunos indígenas. A partir disso, jovens começaram a não sentir mais vontade de ir mais as escolas e a esperança de vida e futuro para os guarani já passou a ser apenas um grande vazio na cabeça desses jovens, o que levou muitos a jogar as suas vidas fora, e temos uma clara relação das mortes na lista abaixo:
15-07-2010 – Carlito Araújo 19 anos
13-09-2011 – Alair Velasquez 17 anos
12-04-2012 – Octaciano Lopes Noceda 56 anos
05-12-2012 – Josimar Fátima Riquelme
10-04-2013 – Sidinei Medina 19 anos
13-06-2013 – Emerson Galeano 17 anos
01-01-2014 – Augustinho Barreto Benites 17 anos
25-02-2015 – Holivanderson Alvares 19 anos
27-03-2015 – Savino Rivarola 18 anos
06-07-2015 – Rafael Montiel Santa Cruz 60 anos
27–07–2015 – Cristina Benitez 19 anos
Como podemos observar, o índice de suicídios por parte dos jovens é enorme ainda mais em meio à essa gritante situação de conflito Territorial na qual vivemos, em situação de acampamento, sem água potável, luz, e sem saúde e educação de qualidade. Vivemos acampados e ameaçados diariamente pela organização dos ruralistas de vários municípios da região. E como vemos também o Estado Brasileiro se mantém omisso diante da situação sub humana a qual vivemos todos os dias com nossos filhos, pais e avós, e não é difícil saber que isso vem acontecendo em nossos acampamentos, pois não temos essa situação preocupante nas aldeias que já são reservas indígenas, por exemplo Ocoy em São Miguel do Iguaçu e as Aldeias de Diamante D’oeste. Nós aqui ainda temos mortes por assassinato, um desses, a morte de Bernardino D’avalo Goularte, assassinado a tiros de arma de fogo, e Ananias Nunes que foi linchado por não índios na cidade após ter matado a esposa a facadas, bom reconhecemos o crime pela parte dele, mas ele tinha o direito que todo ser humano tem que é de ter um julgamento justo, e temos ainda a estranha morte na Tekoha Marangatu, onde um guarani foi degolado e até hoje não sabemos por quem e por quê motivos.
Com isso, só temos a declarar o nosso sentimento de preocupação e solidariedade as famílias que já perderam seus filhos em meio a essa luta desigual que envolve poder-de-fogo e poder financeiro de um lado, enquanto do nosso lado apenas a tradição e cultura de nosso povo, que embora enfraquecida ainda buscamos fortalecer desde as nossas raízes. Com isso, depositamos mais uma vez a nossa confiança no MPF para que tome medidas necessárias de maneira a atender nossas demandas pela demarcação mais urgente possível das nossas terras, pois já estamos cansados de perder familiares tudo pela falta de perspectivas e por termos sempre sido deixados de lado pelo fato de nós guaranis sermos um povo pacífico e calmo.
Mas hoje, estamos sendo discriminados, humilhados, violentados de maneira bárbara pela política do Estado brasileiro e ações dos governos federal, estadual e municipal, e também por grandes empreendimentos de empresas e fazendeiros. O que nos levou a esses longos anos de espera pela demarcação de nossos territórios, e também a sofrer calados todos os tipos de violações de nossos direitos por um estado que colonizou nossas terras e por um progresso que matou culturas e continua matando nossos povos indígenas através de decretos e portarias, nos negando o direito de existir e o direito de sermos o que somos.
Temos também, como exemplo, o Mato Grosso do Sul onde o índice de suicídio e também de assassinatos é muito maior, e vemos que Guaíra e Terra Roxa está indo para o mesmo caminho, enquanto quem tem o poder da caneta fica omisso de maneira covarde e deixa o nosso povo morrer assassinado por pistoleiros de fazendeiros ou por muita espera pela garantia da demarcação da nossa Terra.
Pedimos ao MPF segurança para as nossas Tekohas, devido as ameaças que constantemente temos sofrido, pois de nada adiantaria tomar atitudes só depois que as coisas já aconteceram, temos que agir de modo a prevenir as ações criminosas dessas organizações que estão fomentando o ódio e a violência contra o nosso povo. Como, por exemplo, vem sendo feito pela ONGDIP, que vem trabalhando com discurso de que somos orquestrados pela FUNAI ou por órgãos estrangeiros e também fazendo os nossos vizinhos da cidade a se voltarem contra nós, com o discurso que vamos tomar Guaíra inteira para ser uma Terra indígena, apesar de que Guaíra é um grande território tradicional guarani, mas queremos ter um espaço físico e cultural próprio, não uma cidade.
Aguyjevete.
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