A estratégia dos de cima

Por Raul Zibechi, La Jornada 21/05/2011 às 10:14

Qualquer plano de ação dos movimentos anti-sistêmicos deve partir de uma compreensão o mais completa e abrangente possível dos objetivos estratégicos que perseguem os grupos dominantes, ou seja, a tecnoburocracia que dirige os pricipais fios do poder global.
Qualquer plano de ação dos movimentos anti-sistêmicos deve partir de uma compreensão o mais completa e abrangente possível dos objetivos estratégicos que perseguem os grupos dominantes, ou seja, a tecnoburocracia que dirige os pricipais fios do poder global. Não se trata de erguer uma estratégia alternativa em relação simétrica, mas de compreender como as classes dominantes planejam se perpetuar no lugar atual, para nos preparar e manobrar em seguida.

Nos últimos anos vai ganhando corpo a opção fascista. O nascimento e expansão do Tea Party (movimento de ultra-direita dos Estados Unidos), o ascenso da extrema-direita na França e a direitização até limites perigosos de algumas direitas européias como a espanhola, são sinais de alerta. Na américa latina, a consolidação da oligarquia colombiana e o provável retorno dos Fujimori ao governo no Peru são sintomas mais que preocupantes.

Por fascismo não quero dizer uma ideologia, mas a militarização e extermínio dos de baixo organizados em movimento. É evidente que esses passos podem se dar sem deixar de pronunciar frases “democráticas” e que o extermínio pode ser realizado por governantes saídos das urnas, toda vez que o sistema político tenha ficado reduzido a um exercício eleitoral que não se traduz em mudanças estruturais. Haiti, Colombia e México nos ensinam que militarização, extermínio e “democracia” são inteiramente compatíveis. A recente proposta de Douglas Fraser, chefe do Comando Sul, para abrir uma nova frente de guerra no sul do México e no triângulo Guatemala-El Salvador-Honduras, que define como “a zona mais letal do mundo sem contar as zonas de guerras ativas”, ensina quem toma as grandes decisões que nos afetam.

A tendência mais importante que vive a humanidade é a concentração de poder. Estamos diante do poder mais concentrado que a história conhece, e esse enorme poder é o que permite uma brutal concentração de riqueza e a uma cada vez maior concentraco de pobreza na metade da população mundial. Tão grande é esse poder que escapa o controle dos estados. Esse enorme poder transnacional utiliza alguns estados muito poderosos, como Estados Unidos, para se perpetuar no alto. Para esse poder, a humanidade hoje é um estorvo, como já disseram os zapatistas em “A Quarta Guerra Mundial”, um texto de rigorosa atualidade e que já tem 10 anos.

Fernand Braudel apontava que até o século XVIII a democracia tinha conhecido períodos de fluxo e refluxo mais ou menos constantes, com raras e excepcionais situações de equilíbrio. Só a partir do século XVIII se produziu uma “ruptura das fronteiras do impossível” e a população começou a crescer sem que se haja registrado, em quase três séculos, nenhum retrocesso (“A dinâmica do capitalismo”). Este é um dos dados duros do mundo atual: a enorme expansão do que William I. Robinson denomina como “população global supérfula”, que em sua opinião já representa um terço da humanidade (al Jazeera, 8/5/2011).

Esse terço excluído é um dos objetivos do poder. E o é de diversas formas: é o terço da população do Brasil que é assistido pelo Programa Bolsa Família; o mesmo terço que se alimentava em restaurantes populares durante o regime de Alberto Fujimori administrados por seu clientelismo mafioso. E assim sucessivamente. A contracara, é claro, é a militarização das favelas brasileiras e o assassinato de 70 mil peruanos na mesma década, além da esterilização forçada de 300 mil mulheres indianas. Em cada país e região podem se fazer números e concluir quantos sobram e como se estão implementando programas para neutraliza-los/assassina-los.

Na Colômbia, por exemplo, a guerra deslocou 4 milhões de camponeses de suas terras e provocou centenas de milhares de mortos. O mais terrível é que o genocídio segue adiante, como vem denunciando a Associación de Cabildos Indígenas del Norte del Cauca (ACIN). A guerra e a militarização a serviço do que Robinson denomina como “acumulação militarizada” se realizam desde alguns meses sob os novos moldes “democráticos” esboçados pelo presidente Juan Manuel Santos, que sendo ministro inventou os “falsos positivos” (civis assassinados pelo exército para fazer passar como guerrilheiros mortos em combate) e agora passa como amigo da Unasul e da Aliança do Pacífico, dois projetos antagônicos.

Para os movimentos antisistêmicos, compreender que a variante genocida dos de cima vai ganhando maiores espaços supõe olhar a realidade de frente, não para nos paralizar mas para definir com maior nitidez as formas de ação. Distrair forças em disputas pequenas não tem o menor sentido. Há os que tem ainda a ilusão de que os de cima podem tolerar outra política sem antes neutralizar ou dinamitar os espaços coletivos. Não devemos bloquear a nós mesmos em disputas verbais sobre os caminhos a seguir. Dividem e paralizam; devemos criar e inventar.

Os fatos mostram que é necessário criar espaços para que os de baixo nos relacionemos, possamos debater e questionar, organizar e mobilizar. O que vem acontecendo esses dias na Puerta del Sol em Madrid ou no bairro Exarxia de Atenas, seguindo mais ou menos os mesmos passos que levaram a ocupar a praça Tahrir no Cairo, mostram que é um caminho tão necessário como possível. Um caminho diferente da tradicional greve seguida de manifestação para pressionar o poder, que não olha para cima, mas horizontalmente, que procura tecer vínculos não sistêmicos para desenhar o outro mundo.

Esses movimentos costumam ser criminalizados, perseguidos e reprimidos. Os de cima podem optar pelo massacre como fizeram tantas vezes e costumam fazendo agora no Oriente Médio. Se impõe a necessidade de defender esses espaços, uma tarefa na qual os movimentos estão muito atrás do poder. Mas que deverão abordá-la antes que seja tarde demais.

URL:: http://www.jornada.unam.mx/2011/05/20/index.php?section=opinion&article=025a1pol

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